A Influência e o legado de Roxy Music (Comentando a Discografia)














The Thrill Of It All ♪

Em 1970, nascia Roxy Music, a banda que tinha o pé no futuro. Com uma bagagem retrô, eles se reinventaram várias vezes, havia muitas influências que fizeram a banda ter uma cara única, não havia nada parecido até então na época. A banda era exótica. Extremamente estilosa (nitidamente até nas roupas), Roxy Music era inusitado (continua sendo de certa forma), cada música é uma pintura sonora, e não era pra menos, já que o vocalista Bryan Ferry era um entusiasta da arte, tanto que quase se tornou um pintor antes de se tornar um músico - alias, escolher estar nos palcos foi uma opção contraditória para um rapaz tímido, porém ele soube se adaptar. Ao lado de nomes como David Bowie, Roxy Music seria uma das pioneiras no Glam, além de ser as primeiras faíscas do Punk que surgiria logo depois, a banda também seria uma das precursoras na New Wave oitentista, o que influenciaria nomes como Duran Duran, Talking Heads. 

Como pode perceber, Roxy Music não seguia uma linha reta e não se importava em passear por diferentes estilos. Esta decisão dividiu alguns fãs, já que ela nunca permaneceu a mesma, por outro lado, fez história na música por apresentar uma mistura única e inigualável.  

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roupas excêntricas era a marca da banda no inicio

A primeira fase da Roxy Music, que eu diria ser os dois primeiros álbuns - sendo o primeiro em 1972 e o segundo no ano seguinte intitulado ''For your Pleasure'' - ambos ainda com a participação do Brian Eno, que era quem tocava o sintetizador  e dava um ar mais experimental no grupo. Com as discussões constantes com Bryan Ferry sobre o rumo das músicas, ele saiu e fez uma carreira solo brilhante, assim como o próprio Bryan Ferry que também fez uma carreira solo à altura em 1973, porém ele ainda era um membro da banda, ainda que o relacionamento com os demais integrantes havia esfriado. O próximo álbum lançado nesse mesmo ano de ruptura entre os integrantes da banda,  ''Stranded'', foi lançado sem o conhecimento do Ferry, e ele só não ficou irritado porque o disco fez sucesso e o convenceu a voltar a dar uma atenção maior para a banda. No ano de 1974 e 1975, foram lançados os respectivos álbuns; ''Country Life'' e ''Siren'', que juntos com o Stranded marcam a segunda fase da banda.

Related imageJá a terceira e última fase começou em 1979 com o dançante e festivo disco ''Manifesto'', enveredou para um lado ainda mais pop no ano seguinte com o ''Flesh and Blood'', e concretizou nas paradas de sucesso com o ''Avalon'' em 1982. Roxy Music continuou em atividade até no ano seguinte com turnês e encerrou as atividades, já que o Bryan Ferry quis sair de vez para se dedicar à carreira solo. A banda chegou a voltar algumas vezes para shows esporádicos, mas nada que anunciasse uma volta oficial ou chegassem à gravar mais algum disco.  


Roxy Music (1972)

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O primeiro disco que carrega o nome da banda, já chama atenção pela capa. Na foto uma modelo numa pose com uma cara não confortável, num estilo totalmente vintage eu diria. Alias, falando em modelo, todas as capas da Roxy Music tinha moças que eram modelos, exceto a última ''Avalon''. Cada uma tinha uma pose; às vezes sensual, às vezes esquisita, e isso reforçava o estilo Arte Rock/Pop do grupo. As performances no palco também tinha muito estilo, tanto pelas roupas, como pelas próprias expressões do Bryan Ferry em cantar, extremamente elegante, cheio de classe. Se o rock naquela época tinha uma cara hippie, coisa de gente suja ou algo do tipo, Roxy Music ajudou a  desmanchar essa imagem.

O fato é que esse primeiro disco se nota loga na primeira canção o quanto ele estava à frente do seu tempo, como as primeiras fagulhas do que chamaríamos de Punk mais tarde, como a própria ''Virginia Plain'' um dos primeiros singles da banda. É uma mistura louca de guitarras, saxofone, piano, gaita, vozes, sintetizadores em algumas, até som de moto como no single citado. Temos letras com referencia à cinema, como a ''2HB'', e um som mais ambiental pelos teclados do Brian Eno. Riffs mais pesados como na seguinte ''The Bob (Medley)'', que inclusive, é uma canção bem cinematográfica, quase um filme sonoro. Contrastes bem opostos como a triste ''Chance Meeting'' e a agitada ''Would you Believe?'', duração contraditória como a longa ''Sea Breezes'' (tem um ar meio gótico até, não é atoa que até a Siouxsie and The Banshees regravou) e a curta, porém maravilhosa, ''Bitters End'' que soa bem anos 60.

For Your Pleasures (1973)

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O segundo álbum é o meu favorito. A primeira ''Do the Strand'' é puro Punk, e a letra tem várias referencias desde à ritmos de dança como à dançarinos. A terceira canção ''Strictly Confidential'' é extremamente tocante, Brian Ferry está cantando com mais emoção, a música é uma crescente, pra mim bate de frente com ''Five Years'' do David Bowie. Em seguida temos outra canção mais Punk e que se tornou um hit do álbum, ''Editions of You'', é uma música com uma letra simples, criativa, e o solo de sintetizador no meio cria uma identidade única pra música. Depois a ''In Every Dream Home A Heartache'', é bastante atmosférica porém também é bem rock. Eu imagino Brian Eno e Brian Ferry discutindo e chegando na conclusão em dividir meio à meio o estilo da música (já que cada um queria levar a banda pra um lado). À proposito, a letra é pura poesia. Neste disco também temos uma música com uma duração mais longa que é a ''The Bogus Man'', que eu diria que é bem psicodélica. Consigo ver que essa faixa inspirou bastante o estilo de Danielle Dax por exemplo. 

Enfim, é um discaço. Aqui marca a saída do Brian Eno da banda, e também o ano em que o próprio Bryan Ferry começa sua carreira solo (que merece uma análise inclusive). O segundo disco também marca o fim de só ter o Ferry como letrista, já que praticamente todas as músicas foram de autoria dele. Outra curiosidade aleatória é que o Ferry estava namorando essa modelo que está na capa do álbum, e nesse pouco tempo de banda eles trocaram de produtor, gravadora, guitarrista (teve uma briga feia com o baterista Paul Thompson na época), e até mesmo o baixista saiu, sendo substituído pelo John Gustafson nos três próximos álbuns, porém nem sempre ele ia nas turnês. Alias, os integrantes variavam muito, a lista é grande se for citar todos que passaram por ela. Apesar de várias mudanças, a banda conseguiu conquistar seu espaço.

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Eno e Ferry apesar de não continuarem parceiros de banda, continuaram amigos

Stranded (1973)
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O terceiro álbum continua a qualidade à todo vapor mesmo com a saída do Brian Eno, coisa que ele mesmo chegou à reconhecer mais tarde. O disco abre com a ''Street Life'', e segue bem a linha do Glam Rock. A segunda é a minha favorita, ''Just Like You'', se trata de uma balada linda, cantada com delicadeza e todo charme de Ferry. Já a ''Amazona'' é bem a cara do Talking Heads, nitidamente a banda do David Byrne bebeu bastante da fonte. Outro ponto alto do disco, na minha opinião, é a ''A Song for Europe'', é uma música triste, Bryan Ferry se arrisca até em cantar em Francês no final. Enfim, não tenho muito o que dizer desse álbum, ele não é ruim, mas foi o mais difícil de absorver, acho ele o mais complexo até hoje. 
Country Life (1974)
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O quarto trabalho da banda também é ótimo, e por razões óbvias, é o mais chamativo pela capa. A canção que abre é a maravilhosa ''The Thrill Of It All'', ele tem versos Punk, mas o refrão chega à ser um pouco mais psicodélico, tem uma mistura louca de violinos, saxofone, guitarra. E por falar em instrumentos a música seguinte ''Three and Nine'' dá mais destaque pra gaita no começo, porém os solos ficam por conta do Sax mais uma vez, é uma faixa sem maiores exageros. Outra que gosto muito é a ''Out Of The Blue''. A ''If It Takes All Night'' e a ''Bitter Sweet'' também possuem um contraste bem gritante, enquanto uma é bem festiva, a outra é totalmente oposta. Alias, a ''Bitter Sweet'' é bem teatral, a voz grave do Bryan Ferry é um ponto alto do disco, é uma das melhores. Talvez esse seja o disco que mais tem uma cara cinematográfica, cada música tem uma identidade bem diferenciada uma da outra. 

Não posso deixar de citar a música ''Casanova'' que é um dos pontos altos do disco também, junto com a ''A Really Good Time'', que me fez lembrar do estilo da Tori Amos, Kate Bush, dá pra notar a influência que a Roxy Music teve no estilo dessas artistas por canções como essa, que mais tarde, iria ficar mais gritante.

Siren (1975)

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O quinto trabalho de estúdio abre com o único hit do álbum, ''Love Is The Drug'', que começa totalmente cinematográfico, com passos, e barulhos de alguém entrando no carro. É um pop que claramente, bandas como Talking Heads se inspiraram. Esse estilo de música foi totalmente visionária, muitas bandas Indie bebem da fonte até hoje. Quando ouço, eu nem acredito que é de 1975, parece super atual. Uma curiosidade sobre essa música é que Ferry teve a inspiração quando chutava folhas caminhando no Hyde Parque, em Londres, e também na sua namorada na época que era a modelo Jerry Hall (que posteriormente se casou com o Mick Jagger), ela foi a fonte de inspiração de muitas músicas da banda, já apareceu até em clipe, e inclusive, é ela na foto da capa deste álbum.  

Siren foi um disco a frente do seu tempo, sua relevância perdura até hoje, ele é pop, elegante, misterioso, com certeza esse é um disco que recomendo principalmente pra quem nunca ouviu nada de Roxy Music, aqui temos todas as suas principais características, de modo mais ''acessível'', vamos dizer assim.  Minha preferida é a ''Sentimental Fool'' que tem os dois minutos iniciais mais sombrios da banda, mas depois tem uma melodia que nem parece que vem da mesma música, e o final fica levemente assustador pelo teclado. Já a ''Whirlwind'' é outro ponto alto, ''She Sells'' é uma música que se encaixaria perfeitamente no próximo álbum por ser bem dançante, assim com as duas próximas, que são bem oitentistas, mesmo não tendo o teclado em maior destaque. E o disco encerra com a ótima ''Just Another High'', que por sinal, é bem a cara do pop alternativo dos anos 90.    

Manifesto (1979)
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O sexto álbum marca a volta da banda depois de uma pausa para se dedicar mais à carreira solo de Ferry. Manifesto traz uma formação diferente, e músicas com uma cara completamente nova. Este foi o primeiro disco que ouvi da Roxy Music, e confesso que quando ouvi da primeira vez, eu só tinha gostado da terceira faixa ''Angel Eyes''. Porém, ao reouvir depois de um tempo, ''Angel Eyes'' ficou uma música pequena perto das outras (apesar que ainda gosto muito dela). A música ''Stronger Through The Years'' por exemplo, tem um teclado e baixo maravilhosos, além da interpretação de Ferry estar mais charmosa do que nunca. A próxima ''Ain't That So'' é um baita de um pop, assim como as seguintes; ''My Little Girl'' (que tem uma ótima suavidade), ''Dance Away'' (que tem uma ótima batida de dança, porém se trata de uma música suave, nasceu com cara de hit), ''Cry, Cry, Cry'' (essa sim é uma canção pra dançar), e a última ''Spin Me Round'' (calma, serena, essa música termina o disco de uma maneira totalmente tranquila).

Manifesto é dançante, como a capa sugere, o grande destaque fica por conta do baixo e do teclado que são a alma deste disco. Como não poderia deixar de ser, cada música tem uma aura bem cinematográfica. 

Flesh and Blood (1980)
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O sétimo e penúltimo álbum deixa a Roxy Music ainda mais pop, aqui Ferry iria influenciar grande parte das bandas oitentistas, e por consequência, o pop tocado nas rádios daquela época. A segunda faixa por exemplo ''Oh Yeah!'' é o exemplo perfeito disto; simples, doce, um pouco brega, dançante porém suave, é o pacote completo de um hit da época. Já a ''Same Old Scene'' é uma de minhas favoritas, é bem a cara da Disco Music, no entanto, com uma roupagem oitentista pelos teclados. Logo em seguida, a música que carrega o nome do disco ''Flesh and Blood'', não se destaca muito, enquanto que a  ''Eight Mile High'' tem mais um pouco de Disco Music, com uma pitada de ar misterioso em certas partes, também é uma de minhas preferidas. No entanto, minha preferida de todas é a ''No Strange Delight'', nem consigo descrever em palavras o quanto amo essa música.

Avalon (1982)
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O último álbum, um dos grandes sucessos da Roxy Music, se não o maior, abraça de vez o pop e o topo das rádios. O disco já abre com a canção ''More Than This'',  indiscutivelmente maravilhosa. Em seguida, ''The Space Between'', tem ótimos suingues de Funk na guitarra e baixo, o saxofone e o teclado traz um ar de ficção científica sensacionais. Depois, temos a faixa título ''Avalon'', que me arrepia toda vez que ouço. O que se segue em diante são músicas calmas, que não só relaxam, como nos coloca dentro de micro-sonhos, com um leve ar de estranheza. É impossível não se sentir nas nuvens depois de ouvir esse disco.   

Avalon é um disco que se aproxima do Dream Pop, a doçura contida com certeza influenciou bandas como My Bloody ValentineSlowdive, ou a Ride, só que sem a ''sujeira'' do som das guitarras. 

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Bom, por ora, é isso. Chegamos ao fim da discografia. Roxy Music foi uma banda que se destacava pela sonoridade, que era uma mistura de vintage com músicas futuristas (como foi o caso de algumas no inicio, onde tinha uma cara de ficção científica), e também pela elegância não só das roupas, mas pelo estilo em misturar arte com música. No meio dessas misturas, eles se encontram no Glam, Punk, Pop, Rock... enfim, foi uma banda artística, literalmente falando. Letras cultuadas, repletas de referencias desde à cinema, como à dançarinos e o que mais imaginar. Isso sem comentar as performances em shows, Bryan Ferry tinha olhares com tanta profundidade, postura tão condizente com a música, que era difícil não ficar hipnotizado.

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Comentários adicionais...
Como pode perceber, não deu pra comentar todas as músicas, até porque ia ficar um texto ainda mais gigante do que já ficou. Mas acho que o mais importante ficou claro: Roxy Music foi uma banda excepcional. Tanto que toda essa criatividade perdurou nas carreiras solos de Bryan Ferry e do tecladista Brian Eno, pela qual, eventualmente, comentarei a discografia nesse blog em algum momento. Por ora, é isto. Espero que tenham gostado, e até a próxima!

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