O Saxofone no Punk e Pós-Punk

Romeo Void
Conheça duas ótimas bandas que utilizavam o saxofone em dois gêneros não usuais para isto.

X-Ray Spex
A primeira banda que vem na cabeça quando se fala na junção de saxofone no punk, não poderia ser outra: X-Ray Spex. A banda foi formada em 1976, e era liderada por Poly Styrene; uma adolescente que na época tinha apenas 15 anos. Se Patti Smith é a mãe do Punk, Poly Styrene foi quem abriu às portas para o feminismo e o jeito desleixado das mulheres no rock. Poly não se preocupava em seguir os padrões de beleza que a sociedade impunha, pra você ter uma ideia, ela usava um aparelho de arame desalinhado nos dentes. Logo ela ganhou a fama de desleixada, e consequentemente, quebrou estereótipos femininos da época, e abriu caminho para artistas como Kim Gordon (Sonic Youth)Karen O (Yeah Yeah Yeahs). Em outras palavras, Poly Styrene era a estrela das mulheres que não queriam se vestir como uma boneca Barbie, e queriam também aceitar aquilo que elas eram, abraçando suas diferenças e esquisitices.

As letras de X-Ray Spex acompanhavam essa quebra de paradigmas, Poly ensinava em suas canções sobre crises de identidade, construção genética, e o consumismo da sociedade. Uma das frases mais marcantes dela, retratam bem a poesia de Poly: ''Eu vivo de você, e você vive de mim, e o mundo inteiro vive de todo mundo ... vamos ser explorados, por alguém, por alguém ". Poly teve bastante influência dos Sex Pistols e na sua visão de mundo; a de que tudo era plastificado. 

Em 1977, X-Ray Spex lançam o single Oh Bondage Up Yours! e a banda chamou a atenção pelo sax e pela voz estridente de Poly, e pelos seus ideias ditos na abertura da canção ''Algumas pessoas acham que meninas devem ser vistas e não ouvidas'', caindo como soco no estômago de muitos, e representatividade para outras.    


A banda fez alguns shows, e em 1978 lançou seu primeiro álbum ''Germ Free Adolescents''. Porém, a agenda lotada de turnês fez com que Poly Styrene deixasse a banda no ano seguinte ao se sentir esgotada. Ela foi diagnosticada com bipolaridade mais tarde. Em 1980, ela lançou sua carreira solo, voltando para a carreira pop. Em 1991 ela voltou para a X Ray Spex com os mesmos membros para alguns shows em Londres. Em 1995, eles lançam o segundo álbum de estúdio ''Conscious Consumer''. 

Em 2004, ela lança mais um álbum solo, com músicas relaxantes e calmas. Em 2008, lançou também uma música com sua filha, sobre um papai noel que matou várias pessoas em Los Angeles no mesmo ano. Poly Styrene faleceu em 2011 vítima de câncer de mama, mas antes lançou seu último trabalho solo, o ''Generation Indigo'', e estava muito otimista em levar seu trabalho para uma turnê. 

Poly Styrene foi o coração do X-Ray Spex. Seu espírito foi punk até o último minuto. A banda sempre será lembrada pela personalidade confrontadora de Poly e o saxofone que gritava junto dela, a mais perfeita melodia contraditória.


Essa é a Debora Iyall, vocalista do Romeo Void
Agora, quando se fala em pós-punk com saxofone, a primeira banda que me vem na cabeça é Romeo Void. Os integrantes se conheceram na faculdade de artes, e a banda nasceu oficialmente no dia dos namorados de 1979. O nome surgiu de uma inspiração de manchete de jornal, logo após, tiveram a brilhante ideia de acrescentar o sax de Benjamin Bossi com a voz da Debora Iyall. O resultado não poderia sair outro: sensibilidade e poesia andando juntos; ora com uma base melancólica típica do pós-punk, ora com o pop dançante da New Wave. Mas uma coisa era certa, não importava o caminho em que cada canção trilhasse, o resultado era bom no fim das contas. Romeo Void era uma banda que tinha tudo pra dar certo, porem, a industria fonográfica resolveu não apostar mais na banda. 

Mesmo que o álbum de estréia ''It's a Condition'' de 1981 tenha recebido elogios da crítica, e tenha depois emplacado um sucesso com a produção de Ric Ocasek do The Cars no EP, Never Say Never, isso não foi o suficiente para continuar apostando na banda. Romeo Void ficou até 1984 com a Columbia Records, lançou três discos ao total, sendo que no último, emplacou mais um hit intitulado  ''A Girl in a Trouble (Is a Temporary Thing)''.

Traçando um paralelo nessa história, os dois hits de Romeo Void ganharam vídeo clipe. O primeiro Never Say Never dava a sensação de filme de arte experimental, e serviu como base nos primeiros dias da MTV. Porém, a MTV ficou tão grande dentro do mercado musical, que ela passou a enxergar apenas as bandas que investiam ''pesado'' em seus clipes. Na gravação de ''A Girl in a Trouble (Is a Temporary Thing) '', a gravadora insistiu em colocar outra mulher no vídeo. A vocalista Debora Iyall ficou apenas em telas gigantes no fundo. Isso causou um mal estar na banda, além de, não ter sido condizente com o que a canção pedia. Logo depois, o suporte promocional foi retirado e a banda ficou para trás nos planos da gravadora, deixando assim, os integrantes desanimados. Foi isso que causou a separação.  



Depois de tudo isso, a vocalista Debora Iyall se tornou professora de arte, mas ela não desistiu da música. Um ano após o disco de estreia do Romeo Void, ela já havia lançado um trabalho solo intitulado ''Strange Language''. Parece um Lado B de Romeo Void, porém, algumas canções não cativaram tanto. Em 2010 ela lançou um novo trabalho com o nome ''Stay Strong''; diferente do que ela costumava fazer, as músicas são bem mais simples, com melodias fáceis de se decorar, no entanto, foram músicas difíceis de cair no gosto popular, apesar de ter certo apelo comercial. Resultado: nenhum hit. Mas qualquer um percebe que a Debora não se preocupa em conquistar a fama. Ela sempre cantou o que tinha vontade e pronto.

Gosto de pensar que Romeo Void foi a banda que foi vítima da burocracia que é o mercado musical. O que eles faziam era diferente, as letras eram boas, Debora nunca deixou de lado seu lado feminista, prova disso é a canção ''Never Say Never'', ela também tinha sua veia pop, um exemplo disso é que a canção ''A Girl in a trouble (Is a temporary thing)'' é uma resposta à música Billie Jean do Michael Jackson. Resumindo; eles tinham criatividade, tiveram seu lado pop, porém, quando o artista perde o apoio da gravadora, tudo acaba desmoronando. 

Romeo Void tinha versatilidade, exuberância, e o saxofone mesmo aparecendo timidamente, fez a diferença em dar uma identidade para a banda. Por fim, tudo acabou como se a banda tivesse levado um toco de um rapaz depois de alguns encontros, com promessas de amor infinito. É uma pena.


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