Novo álbum do Ghost ''Prequelle'' Traz o Medieval Aos Dias Atuais




Prequelle é o quarto álbum de estúdio da banda sueca Ghost, e é o primeiro a ser gravado desde que o vocalista da banda teve sua identidade revelada. Isso porque se trata de um grupo teatral, que tem como característica o conceito de 'igreja satânica'. Desde 2008, eles vinham se apresentando com seus rostos encapuzados, e com a presença de um Papa no vocal. Sim, você não leu errado. Ainda existe mascaras e maquiagem em cima do palco, porém, quando os antigos membros da banda decidiram processar o vocalista Papa Emeritus (como era conhecido) em 2017 por questões salariais, todo mundo ficou sabendo a verdadeira identidade do vocalista misterioso; Tobias Forge.

Depois disso ter vazado nos meios de comunicação, Forge assumiu sua identidade publicamente. Mas a teatralidade na banda continua. As únicas coisas que mudaram, é que Tobias matou seus personagens Papa Emeritus I, II e III. Segundo ele, isso ocorreu porque vários dos seus ídolos faleceram como foi o caso de Lemmy Kilmister do Motörhead, David Bowie e até mesmo o Prince. Incomodado com o desejo de se reinventar na banda, Tobias Forge aproveitou seu sentimento de profunda perda para dar um fim nos seus personagens, como ato simbólico. E esse tema de morte nos puxa para o recente álbum 'Prequelle'.

Primeiro single do novo álbum

Antes de mais nada, é bom entender o contexto do álbum. Voltado para a Europa Medieval, ''Prequelle'' fala sobre a peste negra que foi uma epidemia que matou cerca de um terço da população que habitava o continente europeu em meados do século XIV. A doença era disseminada a partir das pulgas que continham a bactéria causadora da peste (Yersinia pestis). As pulgas, por sua vez, eram transportadas pelos ratos, já que elas se hospedavam nos roedores. Nas péssimas condições de higiene das cidades medievais, a peste conseguiu encontrar um ambiente propício para sua propagação entre as pessoas.

Os motivos para o fim da peste estiveram ligados ao próprio ciclo natural da doença, como apontam alguns especialistas. Com a grande mortandade, houve uma grande dificuldade para continuar a propagação da epidemia. Além disso, cidades foram fechadas para a entrada de estrangeiros, pessoas doentes foram colocadas em quarentena e as classes mais ricas, a nobreza, tiveram um menor número de vítimas possivelmente pela maior facilidade de locomoção para seus castelos e casas de campo. A Peste Negra está inserida em um contexto conhecido como Crise do século XIV ou Crise do Feudalismo, ao lado da ocorrência de fomes, problemas climáticos, guerras e conflitos sociais. (Fonte aqui)

Apesar do tema sombrio, 'Prequelle' é um álbum que celebra a vida. Fala sobre o que veio depois da devastação, a esperança em dias melhores, e a necessidade de se reerguer. 


O álbum abre com a canção ''Ashes'', que na verdade se trata de uma canção de ninar chamada ''Ring Ring of Roses'' e segundo lendas, descreve perfeitamente a peste negra. Cantada por uma criança (mais precisamente, pela filha de Tobias), a música ligeira anuncia o álbum num clima frio, mórbido, nos deixando a mercê do que vai vir, com a expectativa lá em cima. Totalmente propício para a próxima canção intitulada ''Rats'', que como explicado anteriormente, os ratos eram transportadores da peste negra. Mas engana-se quem pensa que essa música só quer montar um pequeno filme em sua cabeça, sobre o que aconteceu no passado.  A letra nos interliga nos dias de hoje, nos fazendo refletir não só em como estamos sujeitos à uma doença repentina, algo que não temos controle, mas também em coisas que são do nosso tempo, que são como ratos, que devoram a nossa alma. ''Rats'' é uma música simples, com uma ideia clara, melodia fácil, porém, também existe  tempo para um instrumental de arrepiar no meio da canção, juntamente com um final memorável. É uma junção de simplicidade com criatividade, eu diria. 

Pra quem gosta dos riffs com mais peso, pode se deleitar com ''Faith''. Aos órfãos de Cirice - um dos grandes sucessos do álbum anterior ''Meliora'' - pode sacudir a cabeça sem medo, e declamar um refrão mais lento e harmonioso com convicção. E ainda de quebra, temos a voz do Cardinal Copia (como é chamado o novo personagem de Tobias) mais rouca, numa frase de efeito forte, juntamente com a voz do 'capiroto' em determinado momento. Com os ingredientes de sucesso juntos na mesma canção, pode-se dizer que ela já nasceu um clássico.  


Prequelle é um disco que tem muita a cara 'anos 80'. No entanto, em ''See the light'' dá pra sentir um ar de rock atual - vulgo o que toca nas rádios. A música começa num estilo pop, mas também começa a cheirar de leve o tema medieval na primeira estrofe, e depois na seguinte depois do refrão. E já que estamos falando de refrão, ele não poderia ser mais chiclete. Se tem alguma música com potencial de grudar na mente dos mais jovens, definitivamente é esta. 

Na música seguinte, temos ''Miasma'', que nada mais é do que um instrumental costumeiro de Ghost. A surpresa fica por conta no crescimento que ela tem ao longo dos minutos. Não chega a ser épico ou coisa do tipo, considero mais atmosférica do que qualquer outra coisa. É um som divertido, e o grande barato dela fica por conta do solo de teclado e saxofone mesmo. Música feita pra fazer a galera no show pular/dançar. 

Com os ânimos lá no alto, ''Dance Macabre'' é aquela que tem tudo pra se tornar um novo hit. Uma das mais contextualizadas dentro do tema peste negra, a letra fala sobre a dança antes da morte. De aproveitar a noite, como se não houvesse amanhã, o que de fato se pararmos pra trazer pra nossa realidade, também não existe. A música tem uma pegada mais disco, no entanto, o som da guitarra remete à uma balada que poderia ser do Kiss. De longe, essa foi a faixa que mais me surpreendeu. Não no sentido de ser inovadora, mas no sentido de pertencer ao Ghost, e ainda se encaixar na temática. É um pedacinho dos anos oitenta, misturada com referencia, melodia, refrão marcante. Difícil não se sentir envolvido. 

The Dance of Death (1493) de Michael Wolgemut, do Nuremberg Chronicle of Hartmann Schedel

Chegamos na sétima canção do álbum intitulada ''Pro Memoria''. Nitidamente, é a que mais tem a cara de 'Prequelle'. Ela começa totalmente medieval, e em seguida já ouvimos Cardinal Copia citar Lucifer - que alias, andou bem sumido neste disco. Muitas músicas do Ghost fazem questão de exalta-lo, mas nesse álbum, o personagem Lucifer andou literalmente caminhando por trás, nas entrelinhas. Por um lado é bom, quem tem receio de ouvir músicas desse tipo, vai gostar das letras de Prequelle. Já os satanistas de plantão que escutam Ghost achando que a adoração ao tinhoso é real, certamente vai se decepcionar e achar um álbum leve. Particularmente, não me encaixo em nenhuma das alternativas, pra mim tanto faz como tanto fez, desde que a música seja boa. E posso dizer com todas as letras, ''Pro memoria'' é a melhor de Prequelle. Assim como ''Faith'', ela já nasceu um clássico, mas se eu tivesse que indicar apenas uma música desse álbum, eu escolheria esta. Letra forte, atmosfera ríspida, o piano deu o sentimento que aquelas palavras pediam. O jeito como o refrão é interpretado, chega a arrepiar. Como se eu estivesse ouvindo uma música do Pink Floyd, só que mais escura. Clássico instantâneo.

Por sua vez, a próxima ''Witch Image'', dá voz à personagem morte (Que inclusive, pode ser imaginada em um cavalo branco ou como o próprio nome sugere; com imagem de bruxa). Essa canção é como se a morte estivesse querendo dar um recado à todos nós. É uma das composições mais bem feitas de Prequelle, com toda certeza. Eu diria, que é pura poesia. O ar oitentista mais uma vez dá às caras na melodia, fazendo com que qualquer um cante frases como ''While you sleep in earthly delight, Someone's flesh is rotting tonight'' seja encarada com leveza e naturalidade. As palavras ainda possuem o seu peso, mas o instrumental ajuda a aliviar essa tensão. A música também tem um ar de Duran Duran, e a letra é literalmente Death Metal. Uma mistura estranha, porém bem feita.

A canção seguinte ''Helvetesfonster'' se trata de mais um instrumental. Aqui não precisa de palavras para ficar emocionado. Vi muita gente elogiando 'Miasma', mas, pra mim essa é muito mais impactante. É impressionante o quanto ela chega à nos transportar para outro lugar, de maneira fácil e imediata. Com o terreno preparado, chegamos na última canção ''Life Eternal'' com o coração na mão. Mais uma vez, temos a dona morte falando conosco. Mais uma poesia de encher os olhos. O disco termina num tom frio. Do único jeito que poderia terminar.


Por fim, 'Prequelle' é um ótimo álbum. Pessoalmente, ainda prefiro ''Meliora'', no entanto, o novo álbum faz por merecer. Sinto que Ghost está mais acessível do que nunca, e sua teatralidade está encantadora. Não tem como não se sentir enfeitiçado. Dançante e emocionante ao mesmo tempo, Prequelle mostra que a banda ainda tem muito pra oferecer, tanto em mensagem como em termos sonoros.

Dito isto, só me resta dizer: vida longa ao Ghost.

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