David Byrne - American Utopia (2018) é Um dos Melhores Álbuns do Ano Disparado


Aproveitando a passagem do artista pelo Brasil, nada mais justo do que falar de um dos seus últimos trabalhos.

David Byrne dispensa apresentações. Com uma carreira que inclui a banda Talking Heads em seu currículo, não há mais nada para se dizer. Se você não sabe do que estou falando - o que acho difícil - ouça todos os seus álbuns e se delicie.

Depois de ouvir e constatar por si mesmo a qualidade artística existente em sua trajetória musical, é hora de ouvir seus trabalhos solos. São 11 álbuns de pura influência de todo tipo de música. Não é exagero dizer que David Byrne dá uma verdadeira aula de ritmo e sonoridade em cada canção. E com seu mais recente trabalho, não foi diferente.    

''American Utopia'' é o primeiro trabalho solo depois de 14 anos. Depois de gravar alguns álbuns com Brian Eno, Fatboy Slim, e St. Vincent, Byrne volta pra indagar o mundo que criamos. O título não se refere diretamente à uma Utopia em particular, mas sim aos anseios, frustrações, aspirações, esperanças e medos do nosso mundo atual.

O disco começo com a balada ''I dance like this'', e já chega mostrando ao que veio. Ela consegue emocionar e ao mesmo tempo chacoalhar nossas cabeças com seu refrão robotizado e palavras diretas ao ponto. Existem dois sentimentos opostos competindo na música, e isso é fantástico. 

Já a ''Gasoline and Dirty Sheets'' é aquela canção onde a letra é o maior destaque. É aquele olhar geral sobre como as coisas funcionam em nosso planeta, sob um olhar de um aprendiz. Transmite insegurança, porém também esperança.

A terceira música - e pessoalmente, uma de minhas preferidas do disco - ''Every Day is a Miracle'', tem um ritmo swingado na maior parte do tempo e transmite o sentimento da canção com maestria. A letra é repleta de analogias e exemplos claros pra se chegar aonde quer chegar. Com uma vibe mais feliz e reconfortante, é a canção que mais tem cara de single do álbum.

Na próxima ''Dog's Mind'', David Byrne recupera a emoção trazendo uma mais lenta, e também a mais curta do disco. Com um ritmo dando mais destaque para a letra, a música não dá espaço para um ápice, não existe tanto uso de instrumentos, ainda sim, consegue ser boa pelo poder das palavras. Como não se sentir tocado com a estrofe ''Now a dog cannot imagine, What it is to drive a car, And we in turn are limited, By what it is we are''. É uma verdeira aula de como ser feliz.

A seguinte ''This is That'', continua na mesma vibe da anterior porém mais longa e centrada no presente, em como as coisas são. O brilho fica por conta da atmosfera levantada também pela letra. 

Já a ''It's not dark Up Here'', é mais agitada que as duas anteriores, e possui um ritmo que lembra até o Brasil, por apresentar uma batida que lembra uma especie de cuíca eletrônica. É Byrne sendo Byrne.

A ''Bullet'' é uma das mais melódicas do álbum. Com uma letra poética, a interpretação de David Byrne é o grande brilho da canção. Você sente junto com ele os sonhos indo embora. 

A minha segunda canção favorita deste disco é a próxima ''Doing The Right Thing'' e me tocou de maneira certeira. Quem nunca se perguntou se está fazendo a coisa certa? Essa é a letra que representa todo o conceito do álbum. Mistura todos as emoções mencionadas anteriormente, numa mesma frase. É gostoso de ouvir, tem uma sonoridade que gruda na cabeça, pelo impacto da afirmação, e pelas notas subindo no refrão. 

A penúltima ''Everybody's Coming To My House'' é a minha terceira favorita do álbum. Com um ritmo mais agitado em comparação aos outros, tudo nessa canção funciona. Eu adoro o uso do saxofone + a batida eletrônica. Byrne está ainda mais ácido nas palavras, e as notas levemente mais agudas dão o charme que ela precisa. É uma das mais viciantes sem dúvida. Não é atoa que ele escolheu essa para ser o single do álbum. 

Por fim, ''Here'' fecha o disco nos levando para o momento presente. Provando que não se trata mesmo de uma Utopia Americana, mas de um alarme nos chamando para viver o momento atual. Confesso que lagrimejei nesta, pois ela é uma canção que traz segurança e conforto. Eu senti que pudesse confiar no mundo mesmo ele tendo sua natureza traiçoeira. 

Enfim. Discaço! 2018 já valeu a pena. Obrigada David Byrne.




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